Filosofia na compreensão da sociedade e do mundo
em que se vive e as dificuldades da implementação no currículo escolar
O
homem vive em busca de resposta para problemas que ocorrem no decorrer da
história mediante conflitos interiores e exteriores. Algumas problemáticas têm
tamanha relevância que perpassam o tempo como é o caso existencialismo, do
livre-arbítrio, da moral surgindo discussão sem chegar a um denominador comum,
por isso por ser especulativa e não apresentar um “problema” há dificuldades de implementação da filosofia no currículo escolar.
“Não
são as resposta que movem o mundo, mas sim as perguntas” esta afirmativa
trazida pela propaganda televisiva da TV Cultura dá ênfase no pensamento que
vamos discorrer durante este texto, pois são os conflitos, as inquietações do
ser humano que o levam a buscar as respostas, como as questões ligadas à vida
espiritual, ao sentimentalismo, enfim “então as questões filosóficas fazem
parte do cotidiano? Fazem sim”, é a chamada filosofia de vida “não
identificamos a filosofia de vida com a reflexão do filosofo propriamente dita,
mas notamos que as indagações filosóficas permeiam a vida de todos nós” (ARANHA
& MARTINS, 2009). É mediante estes questionamentos que o homem vai
modificando a realidade que o cerca, por exemplo, uma simples folha de papel
abre um leque de discussão, podemos iniciar uma discussão pensando para que
serve uma folha de papel, por que ela foi criada, qual era a verdadeira
intenção de quem a criou, até as consequências que a produção da folha de papel
provoca na vida no ser humano, no meio ambiente e assim buscar soluções para
tais problemáticas.
Nas
antigas academias gregas algumas questões provocavam inquietações na alma
daqueles que escutavam os mestres discursar como questões ligadas à ética, ao
existencialismo, a moral este são problemas que atualmente não se chegou a um
consenso, e dificilmente se chegará, pois “qualquer argumento que vise refutar
a filosofia é auto-refutante porque nunca será um argumento científico, mas sim
filosófico, não tendo métodos formais de prova” (MURCHO, 2012)
Se
pensarmos que filosofia é apenas uma arte de provocar questionamentos sem
chegar a um denominador comum então se torna impossível o ensino desta disciplina
no currículo escolar, pois a ideia de ensino que temos é daquela que transmite
conhecimentos prontos, como a física, a biologia. Contudo, estas mesmas
disciplinas não têm todas as respostas para perguntas como: como surgiu o
universo? A opção sexual é definida pela genética? Por isso inúmeras pesquisas
são realizadas para se chegar a uma conclusão enquanto que esta por sua vez
muitas vezes acaba sendo ultrapassada por outra teoria. Então, conclui-se que
nem a própria ciência exata é tão exata assim. A filosofia com esta capacidade
de levar o homem a indagações que posteriormente o levaram a tomar certas
atitudes, provocam mudanças no mundo que o cerca, mas nunca na totalidade,
deixando um vazio que sempre buscará ser preenchido.
A realidade da educação brasileira
Não
há como falar de desigualdades em educação sem citar a dualidade entre escola
pública e escola privada, onde há um grande abismo separando-as com salas de
aula inadequadas, distorção de idade-série, o aluno desmotivado, professor não
tem estrutura dentro da escola para desenvolver atividades e muitas vezes têm
que levar as atividades escolares para casa.
Segundo
o jornal Diário do Pará “de uma maneira, o Brasil melhorou: diminuiu a pobreza,
melhorou a saúde, reduziu a diferença entre salários e formalizou mais
trabalhadores, mas inda há desafios a vencer” dados como “7,9% dos paraenses,
apenas disseram ter terminado curso superior e 5,5% das crianças com idade
entre 6 e 14 anos no Pará não frequentavam a escola” (MELO, 2012), é um reflexo
da educação e que muitas vezes está ligada a estrutura familiar e esta pode ser
considerada uma das causas do estado em que se encontra a educação, ou seja, os
pais precisam trabalhar e deixam os filhos por conta própria, sem um acompanhamento
por parte dos mesmos. Diferente de quem tem um responsável para acompanhar e
levar a criança para a escola, possuem acesso em recursos como internet,
professores particulares.
Outro
fator que contribui para o “péssimo” quadro da educação está relacionado as
salas inadequadas sem estrutura, sem carteira, falta de iluminação, sem
ventilação, salas pichadas, salas com grades e cadeados que transformam uma
sala em uma prisão, o professores que criam um bloqueio entre ele e os alunos,
colocado uma mesa para separá-los e muitos professores visam apenas à
remuneração, sem ter amor a carreira.
Segundo
a reportagem da revista Época dualidade entre a escola tradicional e a escola
inteligente está, por exemplo em:
Na escola
tradicional:
O professor -
Passa a maior parte do tempo explanando sobre a disciplina, falando e fazendo
anotações no quadro-negro.
O aluno - Fica
em silêncio, ouvindo as explanações do professor e fazendo anotações em seus
cadernos;
Na escola
inteligente: O professor - Na maior parte do tempo, propõe problemas para os
alunos, coordena debates e orienta as pesquisas dos estudantes. Resume a aula
expositiva ao mínimo necessário;
O aluno - É
desafiado constantemente a solucionar problemas pesquisar, criticar e debater
temas ligados à disciplina. A conversa entre os colegas não só é permitida como
estimulada. (LOPES, 2008)
Muito
se tem que avançar para melhorar o quadro da educação, isto é indiscutível, e
tornar realidade e acessível em todos os segmentos da sociedade o projeto da
escola inteligente será um grande desafio, mas que para a educação possa
melhorar e avançar atualmente “é fundamental estimular nas crianças e jovens a
ética e a solidariedade, para que eles se tornem bons cidadãos” (CORRÊA, 2012),
e que possam ser construtores do conhecimento auxiliado pelo professor.
A INDÚSTRIA CULTURAL INTERFERE NA REALIDADE DA
EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA
Com
o advento da revolução industrial, a sociedade começa um período de muitas
transformações que acontecem de forma muito rápida e educação também sofreu
interferências dessas mudanças. Meandra e Valentin no artigo “A indústria
cultural invade a escola brasileira” elenca vários autores que falam desse
processo de transformação, como Ramanelli e Adorno.
O
surgimento das máquinas, a criação do computador, da televisão, assim como
todos os meios que facilitaram a comunicação entre as pessoas trouxeram grande
contribuição para a sociedade moderna, porém acabaram interferindo de forma não
muito positiva em certos setores como a educação “segundo Otaíza de O.
Ramanelli, a educação no Brasil a educação é marcada por desníveis de acordo
com a compreensão que se tem da realidade social em que se está submerso”,
tentando explicar que é, portanto, “no campo das relações e transformações
sociais, que caminharemos no desafio de descobrir o que acontece na escola, que
permite ao nosso aluno este exercício de se educar”. (MEANDRA E VALENTIN,
2012). Para aqueles que querem entender a educação não poderá ignorar as
questões políticas envolvidas nos processos educativos. Ela (Otaíza Ramaneli)
empenha-se a mostrar uma realidade deformada, tudo pelos interesses dos
poderes, deixando de lado o contexto que o homem está inserido.
Um
dos aspectos a se considerar é que a Indústria Cultural está cada dia mais
presente no meio escolar, e ganhando espaço nas áreas sociais, e não percebemos
seus perigos e suas influências, ela tem por finalidade seduzir o homem para o
consumo. Um dos meios de comunicação de massa na sociedade que é usada por ela
é a televisão, que muitas das vezes está presente em escolas, que através de
programas governamentais, educacionais, vinculadas por professores, alunos,
diretores e funcionários. Ela cria uma necessidade que muitas vezes não se tem,
tentando convencer por meio de vários recursos o desejo de consumir.
Com o pretexto de modernização os
materiais didático-pedagógicos, também são influenciados com a indústria
cultural, as editoras estão cada dia mais conquistando alunos e professores com
matérias atraentes, e com isso as escolas tem auxiliado na fabricação de
pequenos consumidores. Por exemplo, as escolas particulares estão adotando o
uso de agendas escolares com personagens em destaques do momento, tudo para o
consumo desfiado.
Os
professores também sofrem com a chegada da indústria cultural nas escolas com os
“pacotes” de programas curriculares, destinados a eles, onde esses pacotes definem
o conteúdo, as estratégias, e os recursos que eles devem usar, deixando o
professor sem liberdade de trabalho, tirando sua criatividade, e isso contribui
para a deformação do processo de ensino, onde o aluno deixa de ser beneficiado
por aquilo que o professor poderia oferecer, e por consequência o professor
desempenha seu trabalho simplesmente para cumprir obrigações.
O
grande problema é que não estão fazendo uso da Filosofia da educação, estão se
acomodando a receber ordem sem se quer questionar ou saber o porquê. Ela indica
que tudo que lemos e fazemos devemos dialogar, conduzindo-nos a refletir e a
analisar o nosso comportamento. Citando Adorno, o artigo de Meandra e Valentin
(2012) diz:
“Adorno (1995) adverte-nos quanto
à necessidade de mantermos uma postura crítica permanente e vai além, tentando
despertar os educadores para os efeitos negativos de um processo educacional
que visa apenas passar informações aos alunos sem lhes permitir um conhecimento
histórico e político em que esta educação está se concretizando”.
Concluímos assim que é necessário conciliar as práticas pedagógicas a
fim de usar este recurso disponível, a Indústria Cultural, para que ela não
molde as pessoas, pois não temos este direito de molda-las a partir de seu
exterior, nem lhe transmitir conhecimentos prontos, sem submetê-los a reflexão.
Isso por que as mudanças não devem ser isoladas do contexto escolar e educação
não deve fugir de criar pessoas capazes de exercer a autorreflexão.
O
Sistema educacional brasileiro sobre a perspectiva de Pierre Bourdieu
O
filosofo e sociólogo francês Pierre Bourdieu em seus estudos toma como
referencia as desigualdades sociais e aplica esta linha reflexão no ambiente
escolar, detectando que o neste ambiente são reproduzidos valores onde também
reflete o aspecto dominador da sociedade, ou seja, a divisão entre ricos e
pobres permeia a escola, enquanto alguns alunos estudam em um ambiente
estruturado outros não possuem nem a sala de aula, está é a realidade vivida
por muitos brasileiros no interior do país.
Analisando
o sistema escolar francês o sociólogo chega a seguinte conclusão “em vez de ter
uma função transformadora, ele reproduz e reforça as desigualdades sociais”
(FERRARI, 2012), de fato não precisamos nos transportamos para a realidade
francesa que foi objeto de estudo por Bourdieu, porque é gritante o sistema
educacional brasileiro, pois existe um grande abismo separando a escola pública
e a escola privada, como já foi refletido anteriormente, enquanto uma possui
salas climatizadas, com smartboord, Datashow, e outros recursos tecnológicos
disponíveis uma maioria dos brasileiros se esforça para aprender num ambiente
precário com salas sem estruturas mínimas com quadro negro deteriorado, sem
carteiras, e até mesmo casos em que não há a sala de aula. Isso foi objeto de
várias reportagens do jornalismo e telejornalismo brasileiro.
Bourdieu
construiu sua teoria criando conceitos como habitus que “se refere à
incorporação de uma determinada estrutura social pelos indivíduos, influindo em
seu modo de sentir, pensar e agir, de tal forma que se inclinam a confirmá-la e
reproduzi-la, mesmo que nem sempre de modo inconsciente” (FERRARI, 2012), e
capital cultural englobado no conceito de campo “para designar nichos da
atividade humana nos quais se desenrolam lutas pela detenção do poder
simbólico, que produz e confirmam significados” (Idem), no campo da arte, por
exemplo, é definido aquilo que erudito ou popular, de bom ou de mau gosto.
O
sociólogo também diz que o aspecto econômico reflete no desempenho do aluno na
sala de aula, ou seja, aqueles que não podem ter aulas particulares, não
frequentam espaços culturais como cinema, teatro, não tem acesso aos meios de
comunicação e tecnologias modernas podem ser considerados como inferiores. “Os
próprios alunos mais pobres acabam encarando a trajetória dos bens sucedidos
como resultante de um esforço recompensado” afirma Márcio Ferrari (2012).
Por fim, de fato a escola também é um reflexo da
desigualdade social recriando o sistema de classe quando que a educação pensada
não diferencia ricos e pobres, mas o que presenciamos é uma realidade onde
professores não demonstram interesse em educar, alunos desmotivados, enquanto
que o índice que mede a educação tenta disfarçar isso divulgando que houve um
crescimento no desempenho escolar e que o Brasil está próximo da média dos
países ricos. Com relação aos estudos e as teorias de Pierre Bourdieu, suas obras
infelizmente tomaram o rumo do pessimismo e a competição escolar passou a ser
vista como incontornável.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ARANHA,
Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a Filosofia. Volume único. 4° Edição. São
Paulo: Moderna, 2009;
CORRÊA,
Thaís. Maquetes estimulam a
solidariedade. Diário do Pará. Belém do Pará, 28/04/2012.
FERRARI, Márcio. Pierre Bourdieu, o investigador da desigualdade. Disponível em: HTTPS://docs.google.com/open?id=0B6RRGXoT7E0yM2U2NTZhMTUtODYwOS00NGM3LThjYzAtNGM2NjcyYThhNGE4. Acesso em 30 de agosto de 2012.
LOPES, Laura. A
sala de aula do futuro ela é, ao mesmo tempo, sala de aula,
biblioteca,
laboratório de ciências, sala de artes e laboratório de informática. Disponível em: docs.google.com/openid=0B6RRGXoT7E0yMzZmZjExNjMtNTRiZC00ZDFmLWFmMTctYmQyMWM1YTQ2MjA4. Acesso em 21/08/2012.
MEANDRO,
Eliziara Maria Oliveira; VALENTIM, Lucy Mary Soares. A Indústria Cultural Invade a Escola Brasileira. Disponível em:
https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=explorer&chrome=true&srcid=0By4Xp8VZacZTNWIzOTAyZmUtMTkzZS00ZThjLTg3NTYtNThlZWQ1NzJkYzI0&hl=en_US.
Acesso em 26 de gosto de 2012
MELO,
Luiza. Pará está entre os piores na
educação. Diário do Pará. Belém do Pará, 28/04/2012.
MURCHO, Desidério. As Dificuldades de Implementação da Filosofia no Currículo Escolar. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/1968/1642.
Acesso em: 07 de agosto de 2012.
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