quinta-feira, 30 de agosto de 2012

FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO

Filosofia na compreensão da sociedade e do mundo em que se vive e as dificuldades da implementação no currículo escolar

O homem vive em busca de resposta para problemas que ocorrem no decorrer da história mediante conflitos interiores e exteriores. Algumas problemáticas têm tamanha relevância que perpassam o tempo como é o caso existencialismo, do livre-arbítrio, da moral surgindo discussão sem chegar a um denominador comum, por isso por ser especulativa e não apresentar um “problema” há dificuldades de implementação da filosofia no currículo escolar.
“Não são as resposta que movem o mundo, mas sim as perguntas” esta afirmativa trazida pela propaganda televisiva da TV Cultura dá ênfase no pensamento que vamos discorrer durante este texto, pois são os conflitos, as inquietações do ser humano que o levam a buscar as respostas, como as questões ligadas à vida espiritual, ao sentimentalismo, enfim “então as questões filosóficas fazem parte do cotidiano? Fazem sim”, é a chamada filosofia de vida “não identificamos a filosofia de vida com a reflexão do filosofo propriamente dita, mas notamos que as indagações filosóficas permeiam a vida de todos nós” (ARANHA & MARTINS, 2009). É mediante estes questionamentos que o homem vai modificando a realidade que o cerca, por exemplo, uma simples folha de papel abre um leque de discussão, podemos iniciar uma discussão pensando para que serve uma folha de papel, por que ela foi criada, qual era a verdadeira intenção de quem a criou, até as consequências que a produção da folha de papel provoca na vida no ser humano, no meio ambiente e assim buscar soluções para tais problemáticas.
Nas antigas academias gregas algumas questões provocavam inquietações na alma daqueles que escutavam os mestres discursar como questões ligadas à ética, ao existencialismo, a moral este são problemas que atualmente não se chegou a um consenso, e dificilmente se chegará, pois “qualquer argumento que vise refutar a filosofia é auto-refutante porque nunca será um argumento científico, mas sim filosófico, não tendo métodos formais de prova” (MURCHO, 2012)
Se pensarmos que filosofia é apenas uma arte de provocar questionamentos sem chegar a um denominador comum então se torna impossível o ensino desta disciplina no currículo escolar, pois a ideia de ensino que temos é daquela que transmite conhecimentos prontos, como a física, a biologia. Contudo, estas mesmas disciplinas não têm todas as respostas para perguntas como: como surgiu o universo? A opção sexual é definida pela genética? Por isso inúmeras pesquisas são realizadas para se chegar a uma conclusão enquanto que esta por sua vez muitas vezes acaba sendo ultrapassada por outra teoria. Então, conclui-se que nem a própria ciência exata é tão exata assim. A filosofia com esta capacidade de levar o homem a indagações que posteriormente o levaram a tomar certas atitudes, provocam mudanças no mundo que o cerca, mas nunca na totalidade, deixando um vazio que sempre buscará ser preenchido.

A realidade da educação brasileira
Não há como falar de desigualdades em educação sem citar a dualidade entre escola pública e escola privada, onde há um grande abismo separando-as com salas de aula inadequadas, distorção de idade-série, o aluno desmotivado, professor não tem estrutura dentro da escola para desenvolver atividades e muitas vezes têm que levar as atividades escolares para casa.
Segundo o jornal Diário do Pará “de uma maneira, o Brasil melhorou: diminuiu a pobreza, melhorou a saúde, reduziu a diferença entre salários e formalizou mais trabalhadores, mas inda há desafios a vencer” dados como “7,9% dos paraenses, apenas disseram ter terminado curso superior e 5,5% das crianças com idade entre 6 e 14 anos no Pará não frequentavam a escola” (MELO, 2012), é um reflexo da educação e que muitas vezes está ligada a estrutura familiar e esta pode ser considerada uma das causas do estado em que se encontra a educação, ou seja, os pais precisam trabalhar e deixam os filhos por conta própria, sem um acompanhamento por parte dos mesmos. Diferente de quem tem um responsável para acompanhar e levar a criança para a escola, possuem acesso em recursos como internet, professores particulares.
Outro fator que contribui para o “péssimo” quadro da educação está relacionado as salas inadequadas sem estrutura, sem carteira, falta de iluminação, sem ventilação, salas pichadas, salas com grades e cadeados que transformam uma sala em uma prisão, o professores que criam um bloqueio entre ele e os alunos, colocado uma mesa para separá-los e muitos professores visam apenas à remuneração, sem ter amor a carreira.
Segundo a reportagem da revista Época dualidade entre a escola tradicional e a escola inteligente está, por exemplo em:

Na escola tradicional:
O professor - Passa a maior parte do tempo explanando sobre a disciplina, falando e fazendo anotações no quadro-negro.
O aluno - Fica em silêncio, ouvindo as explanações do professor e fazendo anotações em seus cadernos;
Na escola inteligente: O professor - Na maior parte do tempo, propõe problemas para os alunos, coordena debates e orienta as pesquisas dos estudantes. Resume a aula expositiva ao mínimo necessário;
O aluno - É desafiado constantemente a solucionar problemas pesquisar, criticar e debater temas ligados à disciplina. A conversa entre os colegas não só é permitida como estimulada. (LOPES, 2008)

Muito se tem que avançar para melhorar o quadro da educação, isto é indiscutível, e tornar realidade e acessível em todos os segmentos da sociedade o projeto da escola inteligente será um grande desafio, mas que para a educação possa melhorar e avançar atualmente “é fundamental estimular nas crianças e jovens a ética e a solidariedade, para que eles se tornem bons cidadãos” (CORRÊA, 2012), e que possam ser construtores do conhecimento auxiliado pelo professor.

A INDÚSTRIA CULTURAL INTERFERE NA REALIDADE DA EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA
Com o advento da revolução industrial, a sociedade começa um período de muitas transformações que acontecem de forma muito rápida e educação também sofreu interferências dessas mudanças. Meandra e Valentin no artigo “A indústria cultural invade a escola brasileira” elenca vários autores que falam desse processo de transformação, como Ramanelli e Adorno.
O surgimento das máquinas, a criação do computador, da televisão, assim como todos os meios que facilitaram a comunicação entre as pessoas trouxeram grande contribuição para a sociedade moderna, porém acabaram interferindo de forma não muito positiva em certos setores como a educação “segundo Otaíza de O. Ramanelli, a educação no Brasil a educação é marcada por desníveis de acordo com a compreensão que se tem da realidade social em que se está submerso”, tentando explicar que é, portanto, “no campo das relações e transformações sociais, que caminharemos no desafio de descobrir o que acontece na escola, que permite ao nosso aluno este exercício de se educar”. (MEANDRA E VALENTIN, 2012). Para aqueles que querem entender a educação não poderá ignorar as questões políticas envolvidas nos processos educativos. Ela (Otaíza Ramaneli) empenha-se a mostrar uma realidade deformada, tudo pelos interesses dos poderes, deixando de lado o contexto que o homem está inserido.
Um dos aspectos a se considerar é que a Indústria Cultural está cada dia mais presente no meio escolar, e ganhando espaço nas áreas sociais, e não percebemos seus perigos e suas influências, ela tem por finalidade seduzir o homem para o consumo. Um dos meios de comunicação de massa na sociedade que é usada por ela é a televisão, que muitas das vezes está presente em escolas, que através de programas governamentais, educacionais, vinculadas por professores, alunos, diretores e funcionários. Ela cria uma necessidade que muitas vezes não se tem, tentando convencer por meio de vários recursos o desejo de consumir.
Com o pretexto de modernização os materiais didático-pedagógicos, também são influenciados com a indústria cultural, as editoras estão cada dia mais conquistando alunos e professores com matérias atraentes, e com isso as escolas tem auxiliado na fabricação de pequenos consumidores. Por exemplo, as escolas particulares estão adotando o uso de agendas escolares com personagens em destaques do momento, tudo para o consumo desfiado.
Os professores também sofrem com a chegada da indústria cultural nas escolas com os “pacotes” de programas curriculares, destinados a eles, onde esses pacotes definem o conteúdo, as estratégias, e os recursos que eles devem usar, deixando o professor sem liberdade de trabalho, tirando sua criatividade, e isso contribui para a deformação do processo de ensino, onde o aluno deixa de ser beneficiado por aquilo que o professor poderia oferecer, e por consequência o professor desempenha seu trabalho simplesmente para cumprir obrigações.
O grande problema é que não estão fazendo uso da Filosofia da educação, estão se acomodando a receber ordem sem se quer questionar ou saber o porquê. Ela indica que tudo que lemos e fazemos devemos dialogar, conduzindo-nos a refletir e a analisar o nosso comportamento. Citando Adorno, o artigo de Meandra e Valentin (2012) diz:
Adorno (1995) adverte-nos quanto à necessidade de mantermos uma postura crítica permanente e vai além, tentando despertar os educadores para os efeitos negativos de um processo educacional que visa apenas passar informações aos alunos sem lhes permitir um conhecimento histórico e político em que esta educação está se concretizando”.
Concluímos assim que é necessário conciliar as práticas pedagógicas a fim de usar este recurso disponível, a Indústria Cultural, para que ela não molde as pessoas, pois não temos este direito de molda-las a partir de seu exterior, nem lhe transmitir conhecimentos prontos, sem submetê-los a reflexão. Isso por que as mudanças não devem ser isoladas do contexto escolar e educação não deve fugir de criar pessoas capazes de exercer a autorreflexão.
O Sistema educacional brasileiro sobre a perspectiva de Pierre Bourdieu
O filosofo e sociólogo francês Pierre Bourdieu em seus estudos toma como referencia as desigualdades sociais e aplica esta linha reflexão no ambiente escolar, detectando que o neste ambiente são reproduzidos valores onde também reflete o aspecto dominador da sociedade, ou seja, a divisão entre ricos e pobres permeia a escola, enquanto alguns alunos estudam em um ambiente estruturado outros não possuem nem a sala de aula, está é a realidade vivida por muitos brasileiros no interior do país.
Analisando o sistema escolar francês o sociólogo chega a seguinte conclusão “em vez de ter uma função transformadora, ele reproduz e reforça as desigualdades sociais” (FERRARI, 2012), de fato não precisamos nos transportamos para a realidade francesa que foi objeto de estudo por Bourdieu, porque é gritante o sistema educacional brasileiro, pois existe um grande abismo separando a escola pública e a escola privada, como já foi refletido anteriormente, enquanto uma possui salas climatizadas, com smartboord, Datashow, e outros recursos tecnológicos disponíveis uma maioria dos brasileiros se esforça para aprender num ambiente precário com salas sem estruturas mínimas com quadro negro deteriorado, sem carteiras, e até mesmo casos em que não há a sala de aula. Isso foi objeto de várias reportagens do jornalismo e telejornalismo brasileiro.
Bourdieu construiu sua teoria criando conceitos como habitus que “se refere à incorporação de uma determinada estrutura social pelos indivíduos, influindo em seu modo de sentir, pensar e agir, de tal forma que se inclinam a confirmá-la e reproduzi-la, mesmo que nem sempre de modo inconsciente” (FERRARI, 2012), e capital cultural englobado no conceito de campo “para designar nichos da atividade humana nos quais se desenrolam lutas pela detenção do poder simbólico, que produz e confirmam significados” (Idem), no campo da arte, por exemplo, é definido aquilo que erudito ou popular, de bom ou de mau gosto.
O sociólogo também diz que o aspecto econômico reflete no desempenho do aluno na sala de aula, ou seja, aqueles que não podem ter aulas particulares, não frequentam espaços culturais como cinema, teatro, não tem acesso aos meios de comunicação e tecnologias modernas podem ser considerados como inferiores. “Os próprios alunos mais pobres acabam encarando a trajetória dos bens sucedidos como resultante de um esforço recompensado” afirma Márcio Ferrari (2012).
Por fim, de fato a escola também é um reflexo da desigualdade social recriando o sistema de classe quando que a educação pensada não diferencia ricos e pobres, mas o que presenciamos é uma realidade onde professores não demonstram interesse em educar, alunos desmotivados, enquanto que o índice que mede a educação tenta disfarçar isso divulgando que houve um crescimento no desempenho escolar e que o Brasil está próximo da média dos países ricos. Com relação aos estudos e as teorias de Pierre Bourdieu, suas obras infelizmente tomaram o rumo do pessimismo e a competição escolar passou a ser vista como incontornável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a Filosofia. Volume único. 4° Edição. São Paulo: Moderna, 2009;

CORRÊA, Thaís. Maquetes estimulam a solidariedade. Diário do Pará. Belém do Pará, 28/04/2012.

FERRARI, Márcio. Pierre Bourdieu, o investigador da desigualdade. Disponível em: HTTPS://docs.google.com/open?id=0B6RRGXoT7E0yM2U2NTZhMTUtODYwOS00NGM3LThjYzAtNGM2NjcyYThhNGE4. Acesso em 30 de agosto de 2012.

LOPES, Laura. A sala de aula do futuro ela é, ao mesmo tempo, sala de aula,
biblioteca, laboratório de ciências, sala de artes e laboratório de informática. Disponível em: docs.google.com/openid=0B6RRGXoT7E0yMzZmZjExNjMtNTRiZC00ZDFmLWFmMTctYmQyMWM1YTQ2MjA4. Acesso em 21/08/2012.

MEANDRO, Eliziara Maria Oliveira; VALENTIM, Lucy Mary Soares. A Indústria Cultural Invade a Escola Brasileira. Disponível em:

MELO, Luiza. Pará está entre os piores na educação. Diário do Pará. Belém do Pará, 28/04/2012.

MURCHO, Desidério. As Dificuldades de Implementação da Filosofia no Currículo Escolar.  Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/1968/1642. Acesso em: 07 de agosto de 2012.


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